Quando você se percebe diferente de quem já foi
Não foi de uma vez. Não houve um momento exato em que tudo mudou. Mas, em algum ponto do caminho, algo em mim deixou de ser como antes. Eu era mais leve, mais aberto, mais disponível para o outro. Havia uma confiança que não precisava ser construída em camadas, nem testada o tempo todo. Eu me colocava no mundo com menos filtros, menos medo, menos cálculo. E hoje, quando me observo, percebo outra versão: mais contida, mais defensiva, mais silenciosa. Não é uma escolha consciente de ser assim. É como se algo tivesse aprendido, na prática, que se abrir pode custar caro.
Esse aprendizado não veio de um único evento, mas de um acúmulo. Pequenas quebras, algumas maiores, algumas que deixaram marcas profundas o suficiente para alterar a forma como eu me posiciono diante das pessoas. Com o tempo, fui levantando estruturas de proteção que, no início, faziam sentido. Serviam para evitar novas feridas, para manter algum controle sobre o que poderia me atingir. O problema é que aquilo que começa como proteção pode, aos poucos, se transformar em isolamento. E quando vira padrão, já não protege apenas da dor. Também limita o acesso ao que poderia ser leve, espontâneo, verdadeiro.
De fora, isso costuma ser lido como frieza ou amargura. Como se eu tivesse me tornado alguém distante, difícil de acessar, menos afetivo. Talvez haja um pouco disso, sim. Mas há também algo que nem sempre é considerado: ninguém endurece sem motivo. Costuma-se romantizar versões anteriores de nós mesmos, como se fossem necessariamente melhores. Mais felizes, mais abertas, mais inteiras. Mas será que eram mais seguras? Ou apenas menos conscientes do que poderia dar errado? Em muitos casos, o que parece endurecimento é, na verdade, um aumento de consciência. Uma percepção mais nítida das fragilidades, dos riscos, das contradições que antes passavam despercebidas.
O problema é que essa consciência cobra um preço. Porque quanto mais você enxerga, mais difícil fica relaxar. Quanto mais você entende, menos automático se torna confiar. Aquilo que antes era natural passa a ser filtrado, analisado, medido. Você não se entrega da mesma forma. Não acredita com a mesma facilidade. Não se expõe sem pensar duas vezes. E, nesse processo, há uma linha tênue entre amadurecer e se fechar. Amadurecer é ganhar critério. Se fechar é perder acesso. E, às vezes, sem perceber, a proteção atravessa essa linha.
Quando alguém diz que você mudou, pode haver verdade nisso. Mas essa não é a história completa. Porque ninguém vê tudo o que foi necessário para chegar até aqui. Ninguém acompanha os processos silenciosos, as tentativas, os ajustes internos que foram sendo feitos para continuar funcionando. A questão talvez não seja se eu me tornei mais duro, mas entender o que, dentro de mim, ainda está tentando se proteger. E, principalmente, se essa proteção ainda cumpre um papel saudável ou se já começou a limitar mais do que proteger.
Porque há uma versão minha que era mais leve, e isso não se apaga. Mas também há a versão de agora, que aprendeu coisas que a anterior não sabia. Não se trata de voltar atrás, como se fosse possível desfazer o que foi vivido. Trata-se de reconhecer o que pode ser mantido e o que já pode ser flexibilizado. Nem toda mudança é perda, mas nem toda defesa precisa ser permanente. Talvez o caminho esteja em não perder completamente o acesso àquilo que, um dia, foi natural: a capacidade de sentir sem precisar se defender o tempo todo.
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