A traição costuma ser tratada como um “erro” dentro das relações, algo pontual, episódico, que poderia ser superado com o tempo, pedidos de desculpa ou mudanças de comportamento. No entanto, essa leitura simplifica excessivamente um fenômeno que é, na prática, profundamente assimétrico. Existe um privilégio estrutural de quem trai, e ele não está no ato em si, mas nas consequências emocionais que se distribuem de forma desigual entre quem trai e quem é traído.
Essa é a primeira grande assimetria.
O traidor toma uma decisão, consciente ou não, realiza o ato e, depois, segue adiante. Mesmo quando há culpa, ela costuma ser temporária, difusa ou racionalizada. Já a pessoa traída não tem a opção de “seguir”. Ela precisa conviver com a quebra de confiança, com a revisão retrospectiva de toda a relação, com a dúvida constante sobre o que foi real e o que foi mentira. A traição não termina quando o ato termina. Ela começa ali.
Esse privilégio se intensifica quando a traição não é única, mas repetida, escondida ao longo de anos. Nesse caso, não se trata apenas de infidelidade, mas de uma narrativa paralela sustentada em silêncio. A pessoa traída descobre que viveu dentro de uma realidade incompleta, editada sem seu consentimento. Isso produz um efeito devastador: a perda da confiança não apenas no outro, mas em si mesmo, na própria capacidade de perceber, interpretar e se proteger.
Outro aspecto central do privilégio de quem trai é o controle da narrativa. Ao dizer apenas “eu errei”, sem nomear o erro, o traidor dilui a gravidade do que fez. Um erro sem definição não gera responsabilização plena, não convoca empatia real, não expõe a violência emocional envolvida. O impacto do ato fica restrito à intimidade da pessoa traída, enquanto a imagem pública de quem trai permanece preservada. Assim, o peso moral do ocorrido não circula socialmente. Ele se concentra em quem já está ferido.
Há ainda uma dimensão temporal desse privilégio. O traidor pode decidir quando falar, o que revelar, o que esconder e, principalmente, quando “encerrar o assunto”. A pessoa traída não tem esse controle. O trauma não obedece a decisões racionais nem a acordos implícitos de esquecimento. Ele reaparece no corpo, no medo, na hipervigilância, na queda da autoestima. Enquanto o traidor sente alívio por “ter contado”, a pessoa traída muitas vezes sente que a dor apenas começou.
Esse desequilíbrio cria uma situação particularmente cruel: independentemente de a relação continuar ou terminar, o prejuízo emocional recai sobre quem foi traído. Se permanece, convive com a insegurança, a comparação constante, o medo de novas violações. Se vai embora, carrega as marcas da traição para futuras relações. Em ambos os casos, o traidor segue com menos custos emocionais imediatos. Isso é privilégio.
Por fim, existe o privilégio de não precisar sustentar o desconforto. Minimizar, relativizar ou enterrar o assunto é uma forma de autoproteção emocional de quem trai. Mas essa proteção só é possível porque alguém está absorvendo o impacto. Quando o traidor escolhe seguir adiante sem elaborar profundamente o que fez, transfere silenciosamente o trabalho emocional para a pessoa traída. É ela quem precisa compreender, ressignificar, reconstruir a autoestima e reaprender a confiar.
Portanto, o privilégio de quem trai não está na traição em si, mas no fato de não precisar viver dentro das suas consequências. Quem trai comete um ato. Quem é traído passa a habitar um estado de dor prolongada, muitas vezes solitária e invisível. Reconhecer essa assimetria não é buscar vingança, mas justiça emocional. É entender que não há recomeço verdadeiro enquanto o peso do erro continuar recaindo apenas sobre quem foi ferido.
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